O Pesadelo Americano

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Quem diria que um perverso oriundo do mundo da jogatina, que prega o ódio e a divisão da sociedade americana, praticante de atos semelhantes ao de um ditador de uma república de bananas, viesse a ter 47% dos votos válidos nestas eleições?

O Sonho americano parece estar acabando, e um pesadelo pode estar começando. Digo isso com o mais profundo pesar. Qualquer pessoa de bem, lúcida, como os pés no chão, nesses tempos de peste, deve estar chocada com o que está ocorrendo nos Estados Unidos da América. Quem poderia imaginar que a nação que nos deu de presente a primeira constituição escrita e a democracia presidencialista iria ser governada por um caloteiro de perfil hitlerista, em pleno século XXI? Quem diria que um perverso oriundo do mundo da jogatina, que prega o ódio e a divisão da sociedade americana, praticante de atos semelhantes ao de um ditador de uma república de bananas, viesse a ter 48% dos votos válidos nestas eleições? E, pior, viesse a desafiar as leis do país recusando-se a aceitar sua indiscutível derrota! Isso, depois de ter incendiado o país durante os quatro anos de desastrosa e odienta administração. Como que o povo americano quase reelege esse ser grotesco e cruel?

Os EUA estão pagando o preço por conta da forma como a nação foi construída. A fatura chegou. No início do século XIX, os americanos formularam uma doutrina chamada Destino Manifesto, que dizia que os EUA foram escolhidos por Deus para formar uma grande nação. E eles fizeram isso, construíram um belíssimo país. Mas o racismo dividiu a nação. O país rachou ao meio, com a criação dos Estados Confederados do Sul, em 1861, que gerou a brutal Guerra Civil (morreram quase 600 mil americanos e o país foi devastado). A luta foi entre o sul escravagista e o norte libertador. O Presidente Abrahan Lincoln foi assassinado por vencer a guerra e reunir a nação. Pois não é que hoje o país está se comportando da mesma maneira da segunda metade do século XIX, como se apenas uma trégua tivesse sido assinada! Bastou um criminoso, Donald Trump, chegar à Presidência da República, para que um estopim fosse aceso e revoltas incendiassem o país. Algo que de certa maneira ocorre de tempos em tempos na América. Mas não ao ponto de um Presidente dizer que não entregará o governo a seu sucessor. Quem diria que um dia veríamos um presidente americano falar em dar golpe?

Formada inicialmente pelas treze colônias da costa leste do continente, que se tornaram independentes do domínio inglês em 1776, os americanos dão início ao processo de expansão denominado de Marcha para o Oeste. Esse processo aconteceu por meio da compra dos territórios: Luisiana, da França (1803); Flórida, da Espanha (1819) e Alasca, da Rússia (1867). Houve ainda a anexação do Texas, uma república separada do México. E depois a guerra Mexicano-Americana, em que outro enorme território foi tomado dos espanhóis. Em seguida, os americanos anexaram a ilha do Havaí, no oceano pacífico. Enquanto isso levas enorme de africanos escravizados desembarcavam no país para trabalhar nas lavouras do Sul, principalmente colhendo algodão. Segregados, tratados como animais, uma chaga enorme estava se formando no país. Sem contar a luta sem fim com os indígenas.

E os EUA enriqueceram no final do século XIX. A águia, a ave que os representa, decolou, voou alto, chegando às alturas! Levas e mais levas de imigrantes europeus chegaram ao país para desfrutar do Sonho Americano. Em seguida, veio a invasão latina de sul americanos e caribenhos. E após a Primeira Guerra Mundial, o país se tornou a maior potência mundial, encantando a humanidade. A Estátua da Liberdade, em Nova York, representa o ideal de liberdade, da força da Democracia na América, que acolheu os famintos e desesperados de todo o mundo.

Mas um erro enorme foi cometido: o ideal WASP, da sigla em inglês (branco, anglo, saxão e protestante) permaneceu. Os EUA continuaram a separar as pessoas por grupos étnicos: africanos (afroamericanos), latinos, chineses, eslavos e outros, impedindo a socialização e até mesmo uma miscigenação entre esses povos. Isso fez com que o ideal “A América para os americanos” permanecesse, fazendo com que Trump o ressuscitasse e fortalecesse, acendendo ainda mais o ódio dos supremacistas brancos WASP, categoria a qual ele pertence. Assim, o país permanece cheio de bolsões de conflitos étnicos, e pior, de loucos armados até os dentes. E como diz meu mestre Shakespeare: “As feridas que fazemos em nós mesmos cicatrizam-se mal…”.

Com a derrota do genocida Trump, pode ser que Joe Biden consiga apaziguar os ânimos e trazer paz à nação. É o que espero, do fundo do coração! No entanto, sinais de que o sonho americano tenha ares de pesadelo são bastante evidentes. Sim, e a China já tem um PIB maior do que o dos Estados Unidos da América.

“God bless you, America”!

 

Theófilo Silva

Coluna Quinto Ato – Jornal de Brasília