O Corrupto blindado

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Você sabe o que há em comum, ou mesmo a diferença entre um carro blindado e um corrupto blindado? Você já chegou a pensar nisso?

Não é tão simples como possa parecer. Mas podemos dizer que um carro você sabe qual é o preço que se paga para blindá-lo, pois não faltam anúncios publicitários oferecendo o serviço. A blindagem de um corrupto, ou seja, a garantia de sua impunidade, é bem mais complicada, complexa, varia e pode custar milhões, muitos milhões de reais, e até mesmo de dólares. O preço varia conforme o crime e a posição social do indivíduo, já o carro tem uma tabela de preços por conta dos insumos. Claro que varia de modelo para modelo, da mesma forma que varia também de corrupto para corrupto. E a blindagem de um corrupto requer muitas e muitas variáveis. Tem corrupto à prova de granada.

A blindagem de um automóvel, embora tenha vários tipos de camuflagens e aparatos de segurança, dificilmente ultrapassa um milhão de reais. Excluindo-se as limusines do “Czar” da Rússia Vladimir Putin e do Presidente dos EUA. Bem, do carro blindado, estabelecido o preço é só pagar, transferir o dinheiro para uma conta e estamos conversados. A blindagem de um corrupto é uma dor de cabeça, haja problemas e malas para resolver. Claro que a nota de R$ 200,00 veio para simplificar o negócio, já que o volume da mala diminuiu. Mas contas secretas em paraísos fiscais funcionam até bem. Sem contar os muitos “escritórios e empresas” que “lavam” o produto do roubo. Perguntem para o Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e muitos e muitos outros.

Se escrevêssemos uma lista da quantidade de ladrões de dinheiro público blindados neste país, precisaríamos de um caderno de mil páginas, muito embora possamos fazer um “Livro de ouro sujo de lama” e colocar os principais nomes, uns mil deles, pois quase todos eles têm ou tiveram mandato popular ou ocuparam cargo público, seja nas esferas municipal, estadual ou federal. São vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos, governadores, secretários municipais e estaduais, ministros, presidentes e diretores de autarquia e empresários de todos os tipos e naipes. Sem contar com os traficantes de drogas, estilo André do Rap, que também usufruem de blindagem segura.

A roubalheira generalizada foi institucionalizada no Brasil. A chamada “Rachadinha”, o caso comum em que parlamentares e desembargadores ficam com parte, ou mesmo com todo o salário de funcionários comissionados, e mesmo de servidores efetivos, foi oficializada pelo poder judiciário. Sem contar “Os fantasmas”, aqueles servidores que moram noutra cidade, noutro estado ou em outro país.

Os tribunais resolveram de vez: todos os políticos envolvidos com esse tipo de crime estão sendo inocentados, e até mesmo incentivados a continuar roubando. Basta ver o novo Presidente da Câmara Federal, deputado pelo estado medieval das Alagoas, acusado de desviar por intermédio dessa prática criminosa mais de 350 milhões de reais. Seu caso foi arquivado por um juiz de primeira instância, que declarou: “Eu arquivei a denúncia. Simples assim”. Ninguém disse nada. O CNJ calou-se. Ficou por isso mesmo.

Toda essa mudança de entendimento tem a ver com as denúncias dessa prática por conta dos filhos de Bolsonaro que, comprovadamente, fazem isso há muitos e muitos anos. O intuito dessa blindagem é salvar os filhos do Presidente. Isso garante vagas em tribunais de justiça e tribunais superiores. Não estou exagerando. O Brasil foi tomado violentamente e, como nunca antes, por duas epidemias vorazes: a corrupção institucionalizada e o Coronavírus.

Isso me faz lembrar a maldição de Tímon de Atenas, na peça homônima, cumprimentando dois ladrões assumidos: “Mesmo assim agradeço a vocês porque são ladrões de profissão, sem se darem ares de santos, pois aqui se rouba nas profissões mais respeitáveis. Portanto roubai-vos uns aos outros”. Infelizmente, esse é o retrato do Brasil atual. Uma ladroagem generalizada.

Theófilo Silva

Coluna Quinto Ato – Jornal de Brasília