A Praga dos Anos 20 – Democracia Acuada

Por Theófilo Silva

A Democracia enlouqueceu! Os Anos Vinte – do século vinte – os anos entre as duas guerras mundiais, parecem estar de volta! Estou falando da desgraça que se abateu sobre as nações no fim da segunda década do século passado: o nascimento, proliferação e consolidação do autoritarismo, das ditaduras, o chamado Fascismo. A era de Benito Mussolini, Josef Stalin e Adolf Hitler, três figuras sinistras que fizeram escola no mundo naquele período. Pois muito bem, essa Era – estou falando da fase de iniciação, anos vinte – está de volta e, pior, disfarçada, mascarada. É o que está me parecendo! E, coincidentemente agora no início dos anos vinte, do século vinte e um, em 2020. Vejam que número emblemático: 2020! É como se fosse um ciclo! E a História se repete em ciclos! Será que estou exagerando?

Senão, vejamos – “Olhemos a nossa volta”. Quando eu digo que ela é mascarada, é porque quase não temos mais ditaduras declaradas – a sinistra Coréia do Norte é quase uma exceção – como tínhamos dez, vinte, trinta anos atrás. Os abusos agora são dentro das democracias, de dirigentes truculentos, autoritários eleitos pelo voto, supostamente sem fraudes. Digo supostamente porque, com o poder dos Terroristas Virtuais, invasores de softwares, não dá mais para acreditar em completa lisura em eleições, mesmo numa democracia como a dos EUA. Lá se discute ainda hoje a eleição do empresário de cassinos – os americanos dizem que ele não  passa de um “vendedor de carros usados” – Donald Trump e sua relação com a Rússia e seus Hackers – Hacker é um eufemismo em inglês para ladrão ou terrorista!

Digo que a tecnologia deu um golpe na democracia! Quando olhamos o que está acontecendo com a Inglaterra, a nação que criou o Parlamento sete séculos atrás, com essa discussão interminável, quase suicida, do chamado Brexit, ou “sai ou não sai” da União Europeia, achamos que estamos diante de “um bando de loucos” e não da nação da Magna Carta! A riquíssima e pequena Bélgica está a um ano sem governo, isso mesmo, acreditem, um ano sem governo! Os três idiomas, ou três divisões da Nação não conseguem se unir. Quem está “segurando a barra” é a monarquia. A França está mergulhada em greves, depredações, incêndios. Bombardeada pelos chamados Coletes Amarelos e os Sindicatos! Paris sequer conseguiu comemorar o Natal. A Espanha mergulhada na eterna briga separatista entre Bascos e Catalães. A Hungria tornou-se uma nação sombria, em que todo mundo é vigiado. Não há mais liberdade de pensamento. A Turquia está perseguindo e matando qualquer cidadão que se oponha ao governo. É quase uma ditadura sem disfarces. A nossa América Latina entrou em convulsão. A Venezuela mergulhada na fome e no caos. A Bolívia perdeu seu presidente que teve de fugir do país. O Chile com o povo nas ruas protestando e tocando fogo em tudo. A Argentina, embora isso não seja nenhuma novidade, ela vive mergulhada em confusões, enfrenta uma crise econômica devastadora. No Oriente médio, Irã e Iraque estão praticamente em estado de guerra com os EUA, a tensão é permanente e se acirra a cada dia que passa! Os EUA, embora com a economia “bombando”, é governada por um louco, mentiroso e manipulador, que teve seu Impeachment aprovado na Câmara dos Deputados. Um desgaste brutal. Embora saibamos que será revertido no Senado, de maioria republicana, ou seja, do seu partido. Trump é um déspota que dividiu a América! A lista é longa. Paremos por aqui! Mas aí, bom, aí vem o Brasil, pobre Brasil! O país do futuro, que nunca chega!

As novas mídias, redes sociais, algoritmo, inteligência artificial, tecnologia digital e tal e tal elegeram um presidente do Brasil completamente despreparado, que agride a tudo e a todos. Sua equipe é composta em parte por lunáticos que, no afã de manter o emprego, mimetizam tudo que ele diz e faz. Um deles teve o desplante de pedir a volta do AI-5, ou seja,  da Ditadura! E, para piorar, seus filhos “surfaram na onda digital”, na esteira do pai, e foram eleitos com carradas de votos para o Senado e Câmara Federal, mas estão enrolados até o pescoço com esquemas de “Rachadinha” familiar e outros crimes. Resultado, o Presidente tornou-se refém dos filhos. Muitas das suas ações e decisões são tomadas com o fim de protegê-los! O preço que a nação está pagando é altíssimo! O STF sabe o que estou dizendo!

As novas tecnologias destruíram a imprensa tradicional. Rádios, jornais e televisão vivem uma crise brutal. Os jornais impressos se arrastam a duras penas. Os anunciantes migraram para o Facebook, You Tube, Google e outros. Se o jornal O Estado de São Paulo, o glorioso Estadão, tinha antes um caderno de Classificados da espessura de um dicionário, hoje está restrito a seis ou oito páginas. A poderosa Editora Abril, do grupo Civita, que editava dezenas de revistas, que formaram várias gerações, foi vendida pela quantia simbólica de cem mil reais. Isso mesmo, cem mil reais. O quase centenário grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, que tinha dezenas de jornais, emissoras de rádio, que vinha capengando, já há muito tempo, hoje está quase extinto. O Correio Brasiliense é uma mera sombra do que foi. E assim vai! As deliciosas e gostosas Bancas de Revistas, ponto obrigatório de leitura de jornais e revistas até recentemente, hoje quase não existem mais! Viraram mercearias: vendem cervejas, ovos, sorvete, refrigerantes…

À primeira vista, dá para pensar que sou inimigo do progresso, da tecnologia, da informática, do mundo digital, da inteligência artificial, do futuro! Longe disso! O que quero é alertar as pessoas para as armadilhas por trás de tudo isso! Vejam bem, toda essa mudança provocada pela tecnologia de forma rápida, meteórica e que atingiu quase o mundo todo, teve um impacto violento sobre a sociedade, o Estado e seus governos! Simplesmente, não dá para se antecipar ou acompanhar mudanças tão rápidas. O processo eleitoral foi afetado no mundo todo – já se discute o voto impresso. Pessoas que nunca tiveram participação política – vide o caso mais grave o de Donald Trump, nos EUA – foram de repente catapultadas para governos e parlamentos. Dos vinte e sete governadores eleitos no Brasil, em 2018, nove deles são estreantes. Unidades importantíssimas como Brasília, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram ocupadas por novatos na política. No parlamento, Senado, Câmara Federal e Assembleias, foi ainda pior. Aqui, em Brasília, onde moro, um deputado federal foi eleito morando em Miami, nos EUA e uma deputada federal ninguém sabe de onde veio. Tudo isso produto do mundo virtual, do algoritmo e suas Redes.

George Orwell, o atormentado escritor inglês, autor de 1984 e a Revolução dos Bichos, e o quase cego Aldous Huxley, de Admirável Mundo Novo, previram um mundo assim, controlador, vigilante, autoritário, aterrador, parecido com este que estamos vivendo. Mas Orwell e Huxley escreveram esses livros nos anos trinta e quarenta, durante a catástrofe da Segunda Guerra Mundial. Eles previram isso para o pós-guerra, talvez trinta, quarenta anos depois, daí o titulo de Orwell, 1984. O que estamos vendo é que a desgraça demorou um pouquinho mais para chegar. Quem ler 1984 e Admirável Mundo Novo (essa sentença é de Shakespeare) vai ficar chocado que o que esses homens disseram é uma realidade no ano de 2020!

Na verdade, não sabemos para onde estamos indo! Nunca o domínio da tecnologia foi tão grande, nunca se esquadrinhou o planeta e o homem de forma tão aguda e intensa e, o que temos é uma quase obscuridade sobre tudo. O homem não consegue controlar as forças da tecnologia e ruma para o desconhecido. A mentira, que tem se trabalhado para evitar, mapeando, investigando e vigiando tudo, tem um efeito contrário: quanto mais se vigia e se controla o homem, mais a situação foge do controle. Mesmo a ínfima minoria que controla quase tudo, é levada de roldão pela mentira. Digo que vivemos a era da Mentira, do Horror! Nulidades cosméticas travestidas de sábios são catapultadas por poderosos manipuladores da mídia ao trono dos formadores de opinião – a mediocridade reina. Hoje, todo imbecil opina sobre tudo, quando, na verdade, mal sabe ler ou escrever! Esses coitados são manipulados como marionetes, por um instante no palco, e depois serão relegados a uma caixa de esquecimento, que é o fim de toda marionete. São atores da sentença de Shakespeare, em Macbeth “…Um pobre ator que se pavoneia um instante no palco, e nunca mais se houve falar dele”. Como lutar contra tudo isso?

Será que o ocidente está degringolando? A decadência do ocidente de que falava Oswald Spengler, no início do século XX, chegou? Afinal. China, Coréia, e o Japão já há muito tempo “estão de boa”, dando show em todas as áreas! Estão cada vez mais ricos, sofisticados, e não estão passando pelos mesmo problemas do ocidente! Muito embora, a riquíssima Hong Kong, outrora uma província inglesa, que ajudou imensamente no processo de desenvolvimento da China continental – os empresários chineses de Hong Kong levaram dinheiro e know how para lá, investindo maciçamente em todas as áreas – seja um calo no pé do gigante, com manifestações de protesto quase diárias! Sem esquecer o Tibete!

Enfrentamos uma época que requer uma profunda reflexão e ação! Tem gente que acha que todo esse caos é um parto para o surgimento de um mundo melhor. Eu não sei! Meu campo é a literatura, e a arte existe para nos consolar! Sofro com tudo isso – como sofrem todos os homens de bem –, às vezes tenho vontade de ser lenhador ou coisa parecida, ou ir morar no “meio do mato” como fez Tímon de Atenas. Tímon é personagem da peça homônima do autor que me consola, William Shakespeare. Sem Shakespeare eu não sei se não seria um homem desesperado! Quando vejo Donald Trump, Jair Bolsonaro e alguns dos ministros do supremo tribunal federal – assim mesmo em minúsculas – tenho vontade de chorar, vomitar, ou sei lá o quê! Dá náusea! A revolta grita fundo!

Lembro que Tímon, amargurado com a ingratidão, a canalhice, com a desonestidade de Atenas, a amaldiçoa, e a abandona dizendo: “Nada levarei de ti, cidade detestável, a não ser a nudez! Tímon vai embora para os bosques, onde encontrará no animal maior ternura do que no gênero humano…”.

Perdão, mas é o que tenho a dizer!